“Você precisa
ser a mudança que quer ver no mundo” Mahatma
Gandhi
“Cultura é o que fica depois de se esquecer tudo o que foi
aprendido “André Maurois
“A arte é um instrumento de educação” Desconheço o autor
"O feminismo é a ideia radical de que homens e mulheres têm os
mesmos direitos"
Escrevi
este post para falar de uma música, e motivada por um post no facebook que aqueceu os ânimos, mas quero deixar claro que podia ter pegado
em muitas outras, que despertam em mim as mesmas questões, podíamos falar do Robin
Thicke, do Daddy Yankee entre outros e outras, agora não me lembro de mais nomes (sou péssima com os nomes)… mas o importante não são os nomes mas sim
a provocação e as atitudes sexista na música. Não sei se as vezes este sexismo
é inconsciente devido a normalização de tantas atitudes machistas na nossa
sociedade. Mas a verdade é que são estas atitudes machistas, muitas vezes legitimidades
pela sociedade, que são visíveis no hip-hop, no reggaeton ou em temas do pop da
moda. Estas atitudes não são um problema moral mas sim de representação da
sexualidade feminina. Ninguém tolera uma música racista ou homofóbica mas sim
que degrade a mulher. Criticamos a Miley Cyrus mas não dizemos nada do Thicke,
do Daddy, do este ou do aquele. Na verdade é que há letras com um sexismo mais
evidente e outras mais encoberto, e é exactamente aqui que residem as armadilhas
do sexismo quotidiano e da violência simbólica contra as mulheres.
Como eu vivo
em Portugal esta música que mexeu comigo é portuguesa, as outras também mexem e
a prova esta aqui, mas esta música esta escrita numa das minhas línguas maternas (o portugês),
fala da “realidade” das mulheres e homens do país onde vivo e talvez por isso me
levou a escrever este post.
Mereces
mais que momentos ocasionais
agires,
fazer e só depois pensares
sais à
noite e bebes ao ponto de nem te lembrares
ya, a
vida é tua como também é a reputação que lhe dás
foste
crescendo sem querer saber de opiniões alheias
entre
noites, gajos e bebedeiras
curtias
por curtir, beijavas por beijar
até ao
ponto em que fodias sem padrões a respeitar
O que é
que o sexo ocasional tem de mal?
Porque é que os homens e as mulheres que têm
sexo ocasional não podem ser vistos como iguais, elas são mulheres de má
reputação e eles são os Casanova ou então são todos, homens e mulheres, uns inconscientes
por terem sexo ocasional?
Porque
é que o sexo ocasional com um/uma ou vários parceiros/parceiras dá má reputação
seja homem ou mulher (mas principalmente mulher)?
Porque
é que o sexo tem que ser visto como algo inquinado, que “dá má reputação”
quando não é praticado com “padrões a respeitar”? Que “padrões” são estes?
Homens
e mulheres levam séculos a viver uma sexualidade secundária graças a influência que a educação/moral judaico-cristã
(entre outras coisas) tem na nossa sociedade, será que não estamos a reproduzir
valores de moral duvidosa criticando o prazer (é isso que é o sexo ocasional)
de forma negativa?
Porque é que usar o sexo como diversão é negativo? Porque é
que a diversão e o prazer do sexo ainda são tabu? Porque é que uns (homens) se podem
divertir mais do que outras (mulheres)?
Sou eu
que me dou uma má reputação ou és tu (o tu refere-se aos tais 90% de homens que
a letra menciona) que avalias à luz dos teus preceitos morais os meus actos e
atribuis etiquetas a minha forma de ser, sentir e viver? E se tu deixasses de me
julgar como seriam as coisas? E se eu (mulher) e tu (homem) e todos os outros (os
que não se consideram nem homens nem mulheres) pudéssemos viver a nossa
sexualidade sem temer a opinião de seja lá quem for?
Como
seria uma canção que falasse sobre esta liberdade? Que falasse de um sexo livre
e sem pré-conceitos de nenhum tipo? Uma letra que falasse de respeito por todos
os seres humanos e pela sua sexualidade num todo, porque o sexo é apenas uma
das muitas expressões da sexualidade humana?
a
consciência sempre te pesou, mas só no dia seguinte
porque
mais noites vieram, sem que isso te impedisse
aquilo
que não percebes, é que os gajos com que o fizeste
se
gabaram aos amigos da forma como o fizeste
como é
que eu sei? Ouve, eu sou um homem
e por
mais que fale contra mim sei o que é sê-lo
não
subscrevo que sejamos todos iguais
mas 90%
de nós partilha as experiências sexuais
e tu?
Tens sido tema de conversas
sobre
como e a facilidade com que abriste as pernas
e isto
não é censura, só esclareço aqui
que se
tu não te respeitas, não é nenhum de nós que o vai fazer por ti!
Para
quando uma música de um homem para os outros 90%? Chamando-os a atenção do seu
comportamento? Porque é que temos que continuar a ser nós mulheres a adaptar as
nossas atitudes, a inibir os nossos desejos, a educar as nossa emoções e
pulsões vitais em detrimento dos homens para sermos aceites e não criticadas?
REFRÃO
Repete
comigo
não
acredito que ele tenha feito o que fez sem se gabar a um amigo
Repete
comigo
fingir
que nada aconteceu é o primeiro para repetir o sucedido
E nós
não queremos isso, tu não queres isso, se eu quero isso?
nã, já
quis, mas hoje sofro contigo
Esta parte como refrão torna-se a mais evidente de
toda a letra, e assenta em clichés e estereótipos comportamentais que se
arrastam ao longo dos séculos e assenta na filosofia de que o homem é que sabe,
o homem é que "manda" e a mulher obedece tal qual um autómato (o refrão:
repete comigo...). Faz lembrar a época em que os direitos da mulher primeiro pertenciam ao
pai ou irmão mais velho e depois ao marido
E até me podem dizer: …mas na letra o homem está solidário
com a mulher e só esta alerta-la.
Quanto a isso só tenho uma coisa a dizer: não
podemos ter dois pesos e duas mediadas, pois não? Não podemos criticar e dizer
que não o estamos a fazer, pois não? Eu ao escrever estas linhas estou a
criticar, estou a emitir a minha opinião sobre esta letra e sobre o que ela me
provoca assim como esta letra critica a forma de actuar de algumas mulheres. E
a minha eterna pergunta é: Porque não criticamos directamente os homens que
fazem comentários depreciativos sobre as suas conquistas? Se sou esta ou aquela
porque é que foste para acama comigo?
Não
queiras ser o tipo que só serve de escape entre uma relação e outra
um
orgasmo com noite, ou um bom fim de noite sem roupa
porque
isso torna-te numa gaja que até pode vir a mudar
mas vai
ser sempre difícil de assumir ou respeitar
na
nossa cabeça, quanto mais facilmente ficas nua
mais
difícil és mulher para andar de mão dada na rua
infelizmente
é a sociedade em que vivemos
se tu
fazes o que fazemos, ganhas definições diferentes
e eu
sei que não sou ninguém para o fazer
Esta parte da música faz-me
pensar: Esta forma de entender a sexualidade esta medida em função do critério de
desejo masculino, na qual o desejo feminino não existe, caso exista, esta
subordinado ao masculino. Esta crença faz com que em alguns encontros eróticos,
o papel feminino seja o que trave enquanto o masculino está centrado em chegar
a meta estabelecida socialmente: penetração e orgasmo. O caldo esta entornado
quando as mulheres também desejam a mesma meta. Não podemos ter todos, homens e
mulheres, o mesmo desejo?!?!?!?!?
Esta ideia de que a mulher
deve travar, colocar limites e que o homem não tem porque o fazer porque é
responsabilidade dela, pois é ela que vai ficar com má reputação, leva-nos a uma
limitação do prazer:
1- É
limitador para a mulher, pois tem que centrar toda a sua atenção durante um
encontro em evitar que se pense dela estas coisas, coisas que não são de todo
verdade… Será que somos mais ou menos mulheres por ter tido vários parceiros/parceiras? Por querer ter uma noite de orgasmos?
2- Mas
este tipo de pensamento (um orgasmo com noite, ou um bom fim de noite sem roupa)
também é limitador para o homem que subordina o prazer a ejaculação e ao
orgasmo (quando na verdade são dois processos diferentes).
Deste modo
se a nossa atenção, enquanto mulheres, esta focada em travar ou acelerar, a tentativa
do homem em avançar, em função do que vão dizer de nós faz com que não estejamos a desfrutando
realmente do caminho, do encontro, da partilha. E para além disso dificulta o
descobrir dos nossos próprios desejos, o descobrir da nossa sexualidade sem medo
a julgamentos, já que não nos é permitido explorar sem estar preocupadas com o
que vão dizer de nós… ou seja podemos explorar a nossa sexualidade e ter sexo
mas dentro da normativa social… E aqui volta à minha mente a mesma questão, que
não querer calar: Porque é que temos que ser nós mulheres a repetir contigo
(homem/homens) e não repetes tu (homem/homens) comigo (mulher/mulheres): “As
mulheres têm os mesmos direitos sexuais que os homens e NUNCA devemos criticar
NENHUMA mulher pela forma como expressa a sua sexualidade e como disfruta do
sexo”
E que tal
uma musica dirigida, directamente, a esse 90% de homens mostrando-lhes como
esta mal a sua atitude?
e que
provavelmente me vais apontar o dedo por fazê-lo
mas sei
também que se não for eu, ninguém o vai fazer
e que
tu me vais agradecer mais tarde ou mais cedo
a
verdade é que nós somos iguais, erramos e crescemos
mas o
machismo sobrepõe os vossos erros
no
fundo e sendo justo, só existe um argumento
ninguém
quer ficar com alguém que já esteve com toda a gente
Aqui não surgem perguntas na minha mente mas sim as palavras
de Florence Thomas: “ Nem santas, nem bruxas, nem putas, nem submissas, nem histéricas
mas sim mulheres redefinindo esse conceito, enchendo-o de múltiplos conteúdos capazes
de reflectir práticas novas de si mesmas que a nossa revolução nos entregou;
mulheres que não precisam de amos, nem maridos mas sim companheiros dispostos a
tentar reconciliar-se com elas desde o reconhecimento imprescindível da solidão
e da necessidade imperiosa de amor… “
REFRÃO
Repete comigo
não acredito que ele tenha feito o que fez sem se gabar a
um amigo
Repete comigo
fingir que nada aconteceu é o primeiro passo para repetir
o sucedido
E nós não queremos isso , tu não queres isso, se eu quero
isso ?
nã, já quis, mas hoje sofro contigo
Seja homem ou mulher, nada é diferente
ninguem quer ficar com alguem que já esteve com toda a
gente
Que no final da música apareça “Seja homem ou
mulher, nada é diferente” não apaga todas as ideias que foram transmitidas até
aqui…
Quero deixar claro que centrei as minhas questões no
sexo e na sexualidade mas também o poderia fazer nas ideias de amor que as
entrelinhas deixam passar, que falam desse amor que faz de nós (homens e
mulheres) objectos e não sujeitos, esse amor carregado de ideias utópicas e de
mitos que tornam homens e mulheres infelizes e nos faz sentir frustrados ou em
outros muitos mitos dos relacionamentos sexo-afectivos entre
seres humanos, mas como o tema da música esta centrado nos encontros sexuais ocasionais
e de como estes fazem de nós seres humanos mais dignos ou menos dignos de uma
boa reputação, centrei as minhas questões no sexo.
E são isso mesmo, questões… nada do que digo é para
mim uma verdade absoluta e inquestionável por isso também não pretende que seja
para ninguém. Gostava isso sim que fosse o ponto de partida para reflectir,
para desconstruir e construir ideias novas, para debater, para fazer pensar…
Texto escrito: Aida Suárez
Qual é a vossa opinião sobre a letra desta música?